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Alphaville

Falavam sobre Brasília na van enquanto eu morria de sono e observava as carcaças de concreto vazias pela janela.
Falavam que Brasília era uma cidade cruel.
Falavam que Brasilia era uma cidade que não era feita pra pessoas.
“Olha esse tanto de concreto, que horrível”

Enquanto isso, eu pensava em como estava arrependido de não ter ficado dormindo no hotel e em como acho Brasília bonita.

Um vasto vazio.
A paisagem construída.

“Brasília é uma cidade pra carros”

All the modern things
like cars and such
have always existed

“Brasília é uma cidade que não tem calçadas”
Brasília é uma cidade que a gente inventou e não dá conta da própria invenção.
Amo a ideia dessa cidade estranha, considerada cruel por alguns, que não tem calçada, que foi feita pra ser planejada e entendida e no fim ninguém entende. Um plano que não deu certo.

Um dia vou pedir pra Verô pra gente pensar em uma peça sobre Brasília.
Uma Alphaville, como Isaura S/A era uma Alphaville, mas sem água.
Um teatro que não é teatro sobre uma cidade que não é uma cidade.
Um teatro que nega sua teatralidade sobre uma cidade que renega habitantes.
Tudo que é árido causa estranhamento em seres que possuem 70% de água no corpo.

Terça-feira, BH. Sobreviverei a tantas cidades planejadas?

“Estou te olhando há dez minutos mas não sei nada, absolutamente nada”

Jean Seberg teria feito 70 anos ontem.

Uma das atrizes mais charmosas que o cinema já teve.

Cruel, idiota, má, lamentável, covarde…

Um programa de internet que vale a pena!

Eu gosto muito de programas de internet. Eles me dão uma impressão de que são mais focados em um público (seja qual for) e mais despojados do que um programa de TV. O que eu acompanho mesmo é o da amiga – o Chic Visita com a Jana (o último é com a Melissa Depeyre). Também adoro os do FilmeFashion e assisto sempre que posso.

E agora tem o Na Sala do Tatá, no Enxame.tv, MUITO BOM, com o Tatá Aeroplano recebendo gente na sala da casa dele – músicos, bien sûr (Ana e Tata, ESSA É PRA VOCÊS).
/piada interna mode off
Bom, o primeiro Na Sala do Tatá traz Romulo Fróes e Mariana Aydar, o que já me conquista porque adoro os dois. Tem Romulo cantando uma parceria com Tatá e Mariana cantando uma música do Romulo – linda.
Gosto muito dos discos do Romulo (MySpace). O da Mariana gosto de algumas coisas, mas prefiro ela ao vivo – já viu a fofa cantando Vai vadiar? É MUITO bom, sério, uma das melhores releituras de música que eu já vi.
Confere:

Bom, o programa é bem legal, também tem apresentação do Ronaldo Evangelista (que me linkou faz pouco no meu post sobre O desprezo e a banheira – risos hahaha). Vai, gente, assiste bastante para empolgar o povo e eles fazerem mais!

OK, OK, sumi

E eu deveria ter vergonha na cara porque não existe a desculpa “não tinha o que escrever”, eu tenho. HAHA

Comecemos:

Caos Calmo é tudo. Eu sempre achei que não gostava de Nanni Moretti porque faz séculos eu assisti a um filme que eu não lembro qual e não gostei – eu devia ter, sei lá, dois anos de idade.
Gente, foi um exagero, quer dizer que eu era novinho.
Bom, fui assistir Caos Calmo e é simplesmente o filme singelo mais fofo que eu queria ter assistido nesse fim-de-semana. Tem até Roman Polanski em participação especial: fino!

E depois, de quebra, ainda assisti Bande à part – animado, não? Além de ser legal – mas eu prefiro outros do Godard – esse filme tem a incrível capacidade de colocar Anna Karina no cabelo mais horroroso do planeta e ela ainda assim fica bonita. Vaca.


O que eu mais quero é dançar assim.


E eu sei que é clichê, mas eu quero fazer isso no Louvre, obrigado pela oportunidade, beijos.

Depois eu conto mais!

Pink Violence: nonsense is the law of the world

Terceiro especial de Pink Violence, dessa vez com um filme muito mais recente, que virou cult (como assim?!), feito em 2003. Previamente lançado sob o título de Horny home tutor: teacher’s love juice (oh, que meigo), esse softcore japonês foi rebatizado de The glamorous life of Sachiko Hanai com um director’s cut. Aviso aos mais conservadores: esse filme pode constranger. As cenas de sexo, na minha opinião, não são nada soft – só não aparece peru e penetração, mas tem nu frontal, tem a meteção, tem homem chamando a Flávia lá nos países baixos da moça, enfim. O filme já começa com uma cena (LONGA) de sexo e o cara goza mesmo, e goza muito. Tipo “ai, gente, perdi toda minha inocência, achei que ia assistir a uma coisa meio Godard e caí num pornozão!”.
Relax, baby. Só não assista com a sua mãe na sala.


Para mim isso é um dedo, pra você isso é um desejo!: Um plot maluco. Completamente sem noção. Vou tentar resumir (o que é meio impossível). A Sachiko do título não tem uma vida glamurosa porra nenhuma: na verdade ela é uma puta especializada no fetiche “professora-e-aluninho”. Em um coffee break, ela vai para um café (dãhr) onde um norte-coreano e um ocidental negociam uma parada meio máfia. Rola uma discussão e o norte-coreano dá um tiro na cabeça dela (oi?). Só que ela… SOBREVIVE e sai por aí com um buraco na testa (OI?). Esqueci de dizer também que o norte-coreano na verdade negociava o clone do dedo do Bush, isso mesmo, do dedo do presidente dos EUA, que por coincidências bizarras do destino vai parar na bolsa da Sachiko. Para deixar a situação ainda mais bizarra: 1) Sachiko empurra a bala mais para dentro do buraco e fica megainteligente, mas com a parte sensorial atrasada – o que quer dizer que ela trepa e depois de umas horas que ela sente que está trepando; 2) o dedo do Bush FALA. Tá bom para você?

História

A fodona: Sinceramente a fodona só aparece no final. É a norte-coreana que vai resolver a situação que o norte-coreano cagou: a fofa usa terno e gravata, cabelo preso e tem duas gordonas no seu “time”. Só que ela morre menos de dez minutos depois que aparece! HAHAHA A Sachiko em si não é fodona. Usa roupinha pobre, tem o cabelo meio castanho e cara de bobinha. Está mais para objeto sexual, e em nenhum momento sente vontade de se vingar de alguém ou se sente diminuída. Mas é verdade que ela fica divertidíssima depois de virar inteligentérrima. Chega a comer um livro de tão encantada com a “wisdom of the humankind” e fala coisas como “Descartes might have been right. Was Kant right when he speculated that God existed on moral grounds?” enquanto faz sexo. A atriz que interpreta Sachiko chama-se Emi Kuroda e, dizem, foi presa por algo como atentado moral ao pudor em 2004. Ela deixou o cinema para virar uma estrela de shows de artes marciais, tipo luta-livre de mulheres! Que incrível!! HAHA

O rapaz: Qual deles? Se forem todos os que Sachiko faz sexo, fica difícil. Tem o loiro de camiseta amarela do começo, o policial, o professor Saeki, o filho do Saeki (que chama Mamoru), o próprio dedo do Bush, o norte-coreano e um surfista seria incluído na lista, se o filme não acabasse antes. Sinceramente, pelo decorrer da história, acho que o rapaz é o norte-coreano e o vilão é o dedo do Bush. Então tá: o norte-coreano está mais para senhor que para rapaz, usa terno com aqueles cintos de prender arma no tórax e faca na canela. Eu achei ele feinho, mas tem o seu charme macho, até.

O vilão: O dedo é um personagem engraçadíssimo. Vermelho com a unha pintada reproduzindo a bandeira dos EUA, sua cena principal – na qual ele come a Sachiko – é megabizarra e sensacional, com uma televisão que aparece do nada sintonizando a imagem de um cara de terno e máscara do Bush bem tosca. “You’re naughty, Mr. President!“, muito mais safado que o Clinton!


Ai, que vulcão quentinho…

Frases babacas: Nossa, tem várias, o filme transborda de frases ridículas! HAHA Duas das minhas preferidas são “One beef bowl with one egg for the costumer!”, proferida por Sachiko no meio de um gozo atrasado quando ela já está mais pra lá do que pra cá; e “Am I being too existencialistic?”, do professor Saeki imitando pássaro de cueca.

Cena bonita: Eu não diria exatamente bonita, mas são “interessantes”, por assim dizer. Além da do dedo comendo a Sachiko, supracitada, tem a dos Falcons (!!!) simulando os militares americanos, confusos, e a derradeira – tem que esperar os créditos do fim rolarem, mas vale a pena.

Figurino: Beeeem fraco. A coisa mais interessante é o band-aid que a Sachiko usa na testa para esconder o buraco da bala. Ele é branco e a cada cena tem uma coisa diferente escrita nele, de canetinha preta. Na maioria das vezes são ideogramas japoneses que eu não consigo traduzir, mas tem momentos em inglês com SIN e FOLLOW ME.

Sangue: Pouco. Nem é tão pouco assim, mas é que tem tanto sexo que não fica equilibrado!

Saldo final: Eu não sei se é uma crítica aos EUA, ou aos intelectuais que falam muito sobre a “atual situação problemática” mas não fazem nada concreto, ou aos japoneses que reverenciam o ocidente e em especial os EUA, ou tudo isso junto, ou nada disso. Sei que adoro esses filmes que colam no nonsense e no humor com referências inteligentes do tipo Sganzerla ou até mesmo Godard. Só que, claro, ele é um Pink Violence de hoje, portanto tem muito mais sexo que os Pink Violence de antes – e eu confesso que fiquei tentado a passar algumas cenas mais rápido. Pô, ainda se fosse homem com homem…

O trailer:

SLUT. GENIUS.E o site oficial americano.

É um lixo sem limites, senhoras e senhores

CartazDoBandidoDaLuzVermelha

1968 ferve no mundo: é o ano de Barbarella, a heroína intergaláctica e sexy de Roger Vadim, da burguesa Séverine de Bela da Tarde, de One plus One de Godard. O álbum branco dos Beatles é lançado, e é o ano dos hippies, de Hair na Broadway. E, claro, maio de 68 fica marcado como o ano em que os estudantes lutaram por um mundo melhor – ou o que eles consideravam um mundo melhor.
1968 também ferve no Brasil. O AI-5 aperta, a luta armada contra o regime militar encontra seu ápice. Roda Viva é montada no teatro. Beto Rockfeller subverte a linguagem da novela, se afastando totalmente do dramalhão e trazendo o mundo da dramaturgia televisiva para a “vida real”, com uma interpretação naturalista, inclusão de cacos e retrato de um mundo jovem e moderno. Além disso, Rockfeller é um protagonista anti-herói – assim como Macunaíma, no filme de Joaquim Pedro de Andrade. E assim como Jorge, o personagem do segundo filme de Rogério Sganzerla.
Um ano depois do Bandido da Luz Vermelha, personagem dos tablóides, ser preso, Sganzerla decide fazer um filme que tem tudo a ver com hoje – até hoje. 68 ainda não terminou, 40 anos depois? Ele incita o pós-dramático, ele traz uma estética que é inserida no Cinema Marginal mas também o ultrapassa. Em um momento de “consciência política” e “batalhas ideológicas”, ele grita: “quando a gente não tem mais o que fazer… a gente avacalha!”. Ali está o cômico sem ser fácil, e a reflexão sim, sobre jornalismo, sobre o momento histórico, sobre a condição do ser humano, sobre – quem diria – a guerra de classes, oui oui, e sobre… moda!

JoaoAcacioPereiraDaCosta
João Acácio, o verdadeiro Bandido da Luz Vermelha

Rogério Sganzerla tinha apenas 22 anos quando dirigiu Bandido. E ele era bem descoladinho, viu. Tanto que acabou conquistando e amarrando a mais descolada, Helena Ignez, linda, musa, ex de Glauber Rocha. Não é pouco! Esse grau de coolness acabou se transportando para o filme – não apenas na botinha branca Courrèges de Srta. Ignez (vulgo, no filme, Janete Jane), mas no figurino do Bandido.

Ninguém sabe quem é Jorge – e ele também não. Nos seus assaltos, ele não só usa a mulher (não perdoa a família), a cozinha e tudo o que existe na casa do assaltado, mas principalmente vai até o armário. A roupa é uma forma de adquirir uma identidade que ele não tem – a toda hora ele sofre de crises existenciais engraçadíssimas (mas não menos profundas). Ele se veste de maneira bem ousada – à moda da época – e, quando o filme termina (não vou contar o fim, mas é um momento crucial)… repare: ele está inteiro de branco! Identidade perdida – ou encontrada? Acredito que, por todos esses fatores, Bandido é um dos filmes mais importantes no que diz respeito a figurino masculino.

Isaura S/A se inspirou e usou, em seu processo, diversos filmes. Um deles é O bandido da Luz Vermelha. Quem quiser ir: esgotou as quintas, mas agora tem apresentações nas quartas do mês de junho, sem lista. Aparece que vale a pena.
Quem ainda não assistiu ao filme pode alugá-lo ou ver no cinema, hoje, às 17h.


Janeteeee!

Curiosidades:
. Segundo o livro Bordado da fama: uma biografia de Dener, Lenny Dale – homossexual militante que adorava um basfond feito de extravagâncias e frases polêmicas – era amante de ninguém menos que… o Bandido da Luz Vermelha, João Acácio Pereira da Costa.
. O filme participou do quarto Festival de Brasília, em 68. Ganhou prêmio de melhor diretor, montagem, filme… e figurino! No ano seguinte, quem ganhou na categoria Melhor Figurino foi Macunaíma.
. Ivi diz que aquele lenço na cara é Justin e caubói. Pois pra mim é super Bandido da Luz Vermelha. Eu adoro. Originalmente, João Acácio realmente usava um lenço amarrado no rosto e uma lanterna com bocal vermelho – assim como outros bandidos. Cinema marginal rules!
. Diz que João Acácio, assim que foi solto em 1997 (e antes de morrer assassinado, em 98), tinha fixação por usar roupa vermelha. Quando pediam autógrafo para ele, o cara assinava “Autógrafo” no papel. Fala se você não achou mais cool que a Mallory Knox!
. Além de participar de Profissão: Repórter, da Globo, Felipe Gutierrez faz o papel do jornalista que enche o saco de J. B. da Silva, o Rei da Boca. OK, brincadeira, não é o Gutierrez, mas o cara é superparecido, até no jeito de falar! Repara! E sabe quem é o cara? Por essa o nosso Guti não esperava… Ezequiel Neves, aquele do Cazuza. RISOS.

Fotos: as duas primeiras, de João Acácio, são da exposição Imagens de fato: 80 anos da Folha.

Enquanto isso

Por causa dessa cena
Le Mepris
eu fiquei fixado em um dia fumar em uma banheira – de preferência lendo.

Consegui ontem! Foi legal. Mas achei que ia ser mais.

Brigitte
Eu te desprezo, Jorge. Seu cafona.