Arquivo da tag: Hilda Hilst

O que fazer em período de seca?

. Pausas.
. Manha. Mas somente por dois dias.
. Procurar colírios.
. Concentrar-se no que dá dinheiro e não muda o mundo.
. Pintar uma unha, uma só, de azul.
. Sendo mulher, pinte todas.
. Polir problemas.
. Procurar no Google fotos de ambientes marítimos.
. Hilda Hilst.
. Não tentar se surpreender. Não dá certo, e a frustração amarra a boca.
. Mas, se vierem, aceitar as surpresas como presentes providenciais – e agradecer.
. Tomar muita água.
. Tomar muito cuidado com os corações alheios. Um raspão pode ser fatal, um rasgão pode ser abissal.
. Angela Rô Rô.
. Caso esteja no Leblon, aproveitar e observar, apenas.
. Balbuciar. Ninguém precisa fazer sentido sempre.
. Evitar cigarros e bebidas alcoólicas. Não parece, mas eles secam ainda mais.

Acima de tudo, ouvir guitarras, pianos, até atabaques.
E observar a chuva pelas janelas.

Estiagem, pior quando é dentro.

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cenas da década passada e uma foto que comprei nessa década

(mas oh, por que eu estou voltando ao passado,
acho que é só saudade de ver alguém dormindo quando o dia está amanhecendo)

tinha muita raiva dela.
ela era grande, pesada, preta e obsoleta.
não a entendia muito bem,
e ele a entendia, porque na verdade não era questão de entender,
era brincadeira do acaso,
e naquela época eu não sabia muito bem brincar com o acaso,
eu sabia brincar de dublar uma música cafona ao lado de uma menina loira e grisalha.

aliás, isso eu sei até hoje.

hoje
(exatamente hoje)
eu sei que na verdade minha esperança era ser uma smith de um mapplethorpe
mas eu só chegava a no máximo uma fernanda abreu mal sucedida
e mapplethorpe
– que eu sempre falo mappletorphe não sei o porquê –
não era dos acasos,
pelo contrário.

e depois eu vi galinhas sendo criadas no quintal da frente daquele lugar outrora tão charmoso mesmo mofado,
tão charmoso misterioso,
tão estranhamente cruelmente próximo de alguns anos da minha vida e,
bem,
galinhas,
engordei,
quis ser hippie,
e depois mas antes disso eu mesmo quis ser mapplethorpe
e depois ele teve o seu mapplethorpe momentâneo
que estava mais pra goldin mas também já tinha um mapplethorpe dentro de si
e bem depois eu quis ser,
quase exatamente nessa ordem,
abreu (o escritor, não a cantora)
hilst
denser
hall
singer (o judeu, não a profissão)
– lispector não, nunca quis ser lispector, nunca tive alma de dona de casa –
masina (quis um pouco, não quis muito)

enfim quis ser muita coisa
até que lembrei que eu podia ser eu mesmo e a década acabou,
o grande dragão dourado não arrancou a cabeça de ninguém,
não morri de catapora morando sozinho,
não vi um ET,
viva drew barrymore
que viu o ET e hoje faz comédias românticas.

Fim da década passada.
Veja bem, esse texto não fala de amor, esse texto fala de arte.
Nessa década, comprei uma foto daquele lugar feita por Goldin,
ela tem um colchão e o sol bate no colchão.
Ninguém dorme no colchão.
Custou R$ 1.
Fim.

Obs.: vou escrever o nome do Ricardo aqui depois do fim porque caso contrário ele se sentiria muito triste se um texto meu sobre o sobrado não incluísse seu nome. Ricardo Domeneck. Pronto, agora inclui.

qual seu escritor favorito?

Tem 3: J D Salinger, Haruki Murakami e Hilda Hilst

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Deliciosamente esquisita

Jorge Coli: O que é possível esperar de melhor num leitor?
Hilda Hilst: Nunca pensei no leitor. Eu não tenho nada a ver com o leitor.

Cadernos: Portanto, não esperava nada, ou não podia esperar mesmo nada dele?
Hilda Hilst: Eu não tenho nada a ver com os leitores. Não sei quem são, não sei.

Cadernos: Mas neste momento alguém pode estar lendo um livro seu. Isso não importa?
Hilda Hilst: Pode estar lendo, mas não precisa me conhecer, nem eu a ele.

Cadenos: Nunca ocorreu à senhora, na juventude, por exemplo, que poderia ser interessante conhecer os escritores de sua predileção?
Hilda Hilst: Não. Eu só leio os escritores.

Trecho de entrevista publicada no Cadernos de literatura brasileira – Hilda Hilst

É esquisitíssimo um jornalista ler isso. Jornalistas sempre se preocupam com seus escritores.
Em época de internet, então, existe um canal facílimo de interação com eles.
Mas Hilda Hilst, enfim, era esquisita mesmo.

Ou melhor…
Esquisito é você.
Ou melhor: esquisitos somos nós. Es-qui-si-tos.

Triste

Porque fazia tempo que eu não passava pela estação Ana Rosa.
Porque faz tempo várias coisas.
Porque o fim de semana acabou.
Porque a cama está toda desarrumada
e o deslocamento de corpos
não necessariamente acontece
com a mesma velocidade e na mesma direção
que o deslocamento das almas.

Porque eu não posso ter gatos,
eu espirro.
Não posso fumar maconha,
dá pânico.
Não tem Hilda Hilst,
Ana Cristina César
ou Nylon Japão que conforte.

Não tenho uma conta bancária infinita
e queria viajar todos os dias.

Porque o mundo fica
infinitamente
mais imbecil sem ele ao lado.

A poesia que recebi no desfile das Gêmeas

Prometi e agora cumpro:

Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E por isso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e por isso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

Hilda Hilst

Ela me chama. Já vou, mas daqui a pouco. Espera.

+ da Casa

Vamos lá, minhas críticas de anteontem são…

. Rober Dognani
. João Pimenta
. Athria Gomes
. P’tit 

Ontem eu AMEI Gêmeas (não tanto os looks masculinos, mas os femininos mesmo – mas a crítica do Chic vai ser da Milene), gostei da maior parte das coisas. Foi o dia do acabamento bom: já viu as roupas da Purpure de perto? E a Ianire, o caimento da calça é megabom! Eu amei minha crítica da Ash, também, daqui a pouco entra no site. Balanço final: o último dia, na minha opinião, foi o melhor, mais equilibrado e profissa (isso não quer dizer que os outros dias não tenham tido bons desfiles, mas no conjunto a sexta empolgou mais).

Momento assustador: naquela hora “distribuição de poesias” no desfile das Gêmeas (vê a foto da Alê no Flickr dela), o Eduardo recebeu uma da Cora Coralina e eu recebi uma da… HILDA HILST. Pô. Nem quando eu quero fugir dela eu consigo! Depois eu transcrevo o texto aqui – foi superbacana, cada um foi batido à máquina! Tipo “artesanal”! (engraçado a gente achar, hoje em dia, que batido à máquina é artesanal! hahaha)

Agora é Rio, né, minha gente? Lá vamos nós.