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Quando Ricardo Domeneck voltar, 18.04.05

Quando Ricardo Domeneck voltar
o mundo continuará o mesmo
porém eu, muito respeitosamente
farei questão de triturá-lo de maneira carinhosa
e o colocarei em uma pequena caixa de papelão
embrulhada com um conto barato da coleção Sabrina
na cabeceira da minha cama
porque a presença de Ricardo Domeneck
(que surpreendente)
me conforta ao invés de me perturbar.
Ricardo Domeneck nunca me dará febre como Hilda Hilst
nem tensão dos músculos faciais como Clarice Lispector.
A proximidade de Ricardo Domeneck me dá nostalgia de um ano atrás.
Ricardo Domeneck me aquece de um jeito esquisito.
Ricardo Domeneck é uma colcha de veludo vinho.

Que nunca usa estampas, 10.05.07

“Ela não podia falar, balançou a cabeça negando.
– O quê, então? – insistiu ele com voz firme.
– É que sou feia – respondeu obediente, a voz presa na garganta.”
Clarice Lispector, Perto do coração selvagem

Ele tem os dedos dos pés tão longos quanto os meus. Sei porque ele sempre está de chinelos, mesmo que garoe e que faça quinze graus. Anda meio curvado, mas não é exatamente um corcunda – é timidez mesmo. Passou por nós, eu exclamei “oh”, passou o anjo da ternura. Perceberam, fez-se o espanto. Disseram-me “ele é estranho”. Eu não ligo e fico nervoso toda vez que o vejo. Eu viro Annie Hall e se ele me perguntasse – ah, se ele falasse – se ele me perguntasse “você quer uma carona para Santana?”, eu diria SIM, MAS É CLARO, EU ESTAVA PRECISANDO COMPRAR CEREJAS, sendo que eu nunca preciso ir para Santana, sendo que ele não deve ter carro, sendo que ele não deve morar em Santana, sendo que ele nunca perguntaria, sendo que não preciso comprar cerejas, sendo que o que eu preciso é namorar com ele por pelo menos sete meses e eu diria SIM eu diria CLARO eu diria ÓBVIO eu diria SIM sempre.