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Acontece

Paulo Autran: E você, Clarice, acha que a vida é boa?
Clarice Lispector: É bom ser. Mas só isso.

Do livro “Clarice Lispector – Entrevistas”

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cenas da década passada e uma foto que comprei nessa década

(mas oh, por que eu estou voltando ao passado,
acho que é só saudade de ver alguém dormindo quando o dia está amanhecendo)

tinha muita raiva dela.
ela era grande, pesada, preta e obsoleta.
não a entendia muito bem,
e ele a entendia, porque na verdade não era questão de entender,
era brincadeira do acaso,
e naquela época eu não sabia muito bem brincar com o acaso,
eu sabia brincar de dublar uma música cafona ao lado de uma menina loira e grisalha.

aliás, isso eu sei até hoje.

hoje
(exatamente hoje)
eu sei que na verdade minha esperança era ser uma smith de um mapplethorpe
mas eu só chegava a no máximo uma fernanda abreu mal sucedida
e mapplethorpe
– que eu sempre falo mappletorphe não sei o porquê –
não era dos acasos,
pelo contrário.

e depois eu vi galinhas sendo criadas no quintal da frente daquele lugar outrora tão charmoso mesmo mofado,
tão charmoso misterioso,
tão estranhamente cruelmente próximo de alguns anos da minha vida e,
bem,
galinhas,
engordei,
quis ser hippie,
e depois mas antes disso eu mesmo quis ser mapplethorpe
e depois ele teve o seu mapplethorpe momentâneo
que estava mais pra goldin mas também já tinha um mapplethorpe dentro de si
e bem depois eu quis ser,
quase exatamente nessa ordem,
abreu (o escritor, não a cantora)
hilst
denser
hall
singer (o judeu, não a profissão)
– lispector não, nunca quis ser lispector, nunca tive alma de dona de casa –
masina (quis um pouco, não quis muito)

enfim quis ser muita coisa
até que lembrei que eu podia ser eu mesmo e a década acabou,
o grande dragão dourado não arrancou a cabeça de ninguém,
não morri de catapora morando sozinho,
não vi um ET,
viva drew barrymore
que viu o ET e hoje faz comédias românticas.

Fim da década passada.
Veja bem, esse texto não fala de amor, esse texto fala de arte.
Nessa década, comprei uma foto daquele lugar feita por Goldin,
ela tem um colchão e o sol bate no colchão.
Ninguém dorme no colchão.
Custou R$ 1.
Fim.

Obs.: vou escrever o nome do Ricardo aqui depois do fim porque caso contrário ele se sentiria muito triste se um texto meu sobre o sobrado não incluísse seu nome. Ricardo Domeneck. Pronto, agora inclui.

berziníguia

O que eu sinto não dá pra falar direito. Não é exagero. Porque é só meu. Não sei dizer o que é nas palavras que já existem porque é outra coisa, que estou sentindo pela primeira vez e que ninguém nunca sentiu antes.

Cada coisa que cada um sente é a primeira vez que aparece.

Posso dizer que não é tristeza. Não é raiva. Não é felicidade, nem alívio. Tem um pouco de melancolia, talvez, e uma pitada de tédio. Lá dentro existem grandes espaços vazios, cansaços e um sentimento alerta, que não é um grito, mas uma sobrancelha levemente levantada e um olhar um pouco arregalado.

Berziníguia.

Tô sentindo berziníguia. Não sabia que palavra usar, então inventei uma.

Mas amanhã já vai ser outra coisa, e vou ter que inventar outro nome. Berziníguia nasceu hoje e morre hoje.

Aceita vinho tinto?

Amadurecer?

Não, não é verdade que a gente amadurece.
O que acontece é que quanto mais velho, mais você liga o foda-se, portanto mais você está apto a falar verdades e ter ações que realmente resultam em consequências.
E assumir consequência também fica mais fácil com o tempo. Você vai pegando gosto. Vai percebendo que não é um bicho de sete cabeças.

Pra mim, sempre foi muito fácil falar o que eu realmente sinto e penso. Na maioria das vezes acabo me fodendo, mas acredito ser melhor assim anyway. Todo mundo sempre me achou muito maduro por dizer coisas e assumir certos riscos teoricamente calculados (bem na teoria). No fundo, todo mundo está errado: não sou maduro. Eu simplesmente sou o que os outros chamam de sem noção e o que eu chamo de coerente, do bem, verdadeiro ou seja lá o que for.

Por isso eu fico meio chocado quando as pessoas parecem ter algo a esconder. É muito estranho.

EXEMPLIFICANDO

Tipo, é surreal para alguém uma conversa assim:
A: Então, na verdade eu fiquei com você naquela noite mas eu tô sussa, foi só uma noite mesmo.
B: Ah, que pena, eu poderia namorar você.
A: Puxa. Sinto muito.
B: OK. Só deixa eu apagar seu número da minha agenda de celular… hum… pronto.
A: OK! Posso te fazer uma pergunta?
B: Hum, acho que sim.
A: Eu posso te cumprimentar… assim… quando te encontrar?
B: Claro! Mas, ó, por favor, não fica com nenhum amigo meu, tá? Eu não vou gostar.
A: Tudo bem, claro!

Pra mim essa conversa seria OK. Não é a coisa mais divertida do mundo, mas pelo menos as coisas não ficam pela metade, não se geram ruídos, fica tudo bem. Óbvio que isso também conta pro “Nossa, tô adorando você” / “Eu também!” / “Poxa, que legal, vamos tomar um sorvete?” / “Sim!”

Mas aí o que acontece no lugar disso? Olhares mal-entendidos, frases difusas, passos confusos. Tsc tsc.

Mundo: vocês têm muito a aprender com os capricornianos. Porque no fundo, é simples, eu juro.

And again:
“Oh, não se assuste muito! às vezes a gente mata por amor, mas juro que um dia a gente esquece, juro! a gente não ama bem, ouça (…)” – A legião estrangeira, de Clarice Lispector

Eu não juro que a gente esquece, não. Mas é verdade que a gente esmaga de amor. Morde. Arranha. Arranca pedaço. Os Beatles sofriam com as jujubas das fãs. Drive my teeth across your chest to taste your beating heart, Florence + the Machine, Howl. Happiness is a warm gun. Beware.

Pow.

E o figurino está pronto!

(ou praticamente pronto – só falta a barra!)

Fazer figurino de teatro é difícil. Esse foi um pouco mais complicado, porque tinha um pouco de dinheiro e as meninas optaram por produzir mesmo. Imagina: eu, jornalista, desenhando roupinha? Bom, aos trancos e barrancos e com a ajuda abençoada da Monayna e do Mario na produção (Casa de Quem crew!), o lance rolou bem e eu fiquei bem feliz com o resultado!
É engraçado fazer figurino porque você não pode pensar só na montação, ainda mais nas peças com a Verô na direção, que geralmente tem muito movimento. Funcionabilidade total. E o pior é que eu queria dois macacões – e macacão, meu bem, é a peça mais complicada que tem. Se o cavalo está muito pra baixo, fica feio quando a pessoa levanta a perna; se o cavalo está muito justo, pode rasgar quando a pessoa fica de cócoras. Um drama. ENFIM, eu acho que ficou bem bonito, bem o que eu queria, diferente e ao mesmo tempo afastado da ideia de mulherzinha que uma peça de Clarice Lispector pode sugerir. Não tem rosa, não tem saia, não tem vestido, não tem babado, e ao mesmo tempo tem uma feminilidade e é divertido sem ser lúdico demais.

Mas vocês que me dizem, né? Corre pra comprar porque vai acabar rápido: são poucos lugares, já que a peça só comporta uns 20, 25 espectadores por apresentação!

ESQUISITO É VOCÊ!

Abri essa cerveja que está agora nas minhas mãos mas não é para relaxar, não é para me perder, é para esquecer, mesmo.

ESQUISITA É VOCÊ!
ESQUISITO É VOCÊ!
ESQUISITO É VOCÊ!
ESQUISITO!
ESQUISITA!
ES-QUI-SI-TÁ!

Da incompreensão pelas pessoas que fazem mal para quem eu gosto, passei para o ódio. Tive que ficar um tempo num banco da Praça Buenos Aires fumando um cigarro para tentar refletir qual seria a melhor solução – deveria matá-los? Deveriam esses seres que criam intriga, roubam, praticam o maldizer, simplesmente passar impunes pela face da terra?
Tem gente chorando por causa desses canalhas. Chorando. Derramando lágrimas.

“Oh, não se assuste muito! às vezes a gente mata por amor, mas juro que um dia a gente esquece, juro! a gente não ama bem, ouça (…)” – A legião estrangeira, de Clarice Lispector

Saí da praça entendendo menos, sem solução nenhuma, mas com alguns pequenos diamantes – dos valiosos mesmo, e não desses de pendurar e ostentar. Estou percebendo cada vez mais que o dinheiro é venenoso – receba-o em pequenas doses, somente o necessário, venenos são necessários, sabia? – e que o meu figurino da peça
ah, sim
ele é
uma homenagem
e eu nem tinha percebido.

Aos que não tem absolutamente nada a ver com isso – ou seja, quase que absolutamente todos os leitores desse humilde blog – sorry, I think I just pucked a little in my mouth.
Esquisitos somos nós, são eles. ESQUISITO É VOCÊ, ESQUISITO É VOCÊ, ESQUISI-TÔ! ESQUISI-TÁ!

“Eu que não lembrara de lhe avisar que sem o medo havia o mundo.” – idem

Não conte para ninguém

Dois telefonemas nessa semana me fizeram virar de cabeça para baixo. Se me encontrar na rua e me ver completamente emburrado, não se iluda, não é pessoal – eu estou PENSANDO, e quando penso pareço emburrado.

Bom, eu posso contar sobre um dos telefonemas.
Mas como eu não gosto da linearidade na era do pós-dramático (sou very in, honey), vou de fragmento.

Eu e Verônica, uma garrafa de vinho, pães, patês e azeitonas.
– Eu preciso de um grupo técnico.
– A gente precisa… pendurar coisas! A gente precisa… que cada coisa pendurada tenha sua função!
Nada de intenções, a gente quer ações entre amigos.
– Eu quero… friccionar essa garrafa nessa bolsa para ver no que dá!
Para ver se… faz barulho. Simples.
Fricções.

Peça de Clarice Lispector? Eu só sei o que o figurino NÃO deve ser.
Fora saia, fora vestido, fora babadinho, fora estampa de bolinha.
EU QUERO CALÇA. Cruzes. Só vale ser mulherzinha se for intencional e existir ironia por trás.