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Não é proibido

A carreira da Marisa Monte me interessa demais porque foi algo que eu acompanhei desde o começo e tomou caminhos muito instigantes.

Eu me lembro que, quando eu tinha menos de 10 anos, um vinil surgiu na minha casa. Tinha a foto dela, meio desfocada, e se chamava MM. Minha irmã levou o disco para casa (não sei qual das duas, acho que foi a Ana) e a grande comoção era por causa da voz de Marisa Monte. “Nossa, que timbre!”. Eu, com a minha sensibilidade musical infantil, não reparava que a voz dela era particular. O que me interessava eram as músicas mesmo. Era a primeira vez que eu ouvia Cartola (a segunda foi num vinil da Elis Regina que eu não sei como não furou, ouvia Basta de clamares inocência toda hora), Mutantes (eu sempre gostei mais da versão da Marisa de Ando meio desligado, mesmo quando eu não conhecia a versão original!); era a primeira vez que eu ouvia um samba enredo e gostava (um samba enredo meio torto, claro, com uma bateria diferente);

e era a primeira vez que eu ouvia Chocolate.

Bem que se quis para mim era OK – não via nada muito sexual nela. Achava uma baladinha romântica bonita, mas não caí de amores. Chocolate que era a música que escondia algo.

Não sabia ainda o que era “legalize marijuana” – nem sabia que Tim Maia era um fã de tudo que é ilegal, imoral ou engorda – mas tinha certeza de que, de alguma maneira, aquela música tinha algo proibido. A mesma certeza que as crianças têm de que a tia da Educação Física é lésbica, mesmo sem saberem o que é lésbica. Farejava algo.

Na oitava série a gente fez um teatrinho. Nessa época eu já sabia um pouco mais do que Chocolate poderia querer dizer. Eu escrevi o texto, e a primeira cena mostrava as três personagens principais (Diana, Lara e Márcia, igual em Irmãos coragem) na sua profissão: elas eram… cantoras de boate. Porque cantoras de boate eram legais – eu fiz um eufemismo de puta sem consciência total da coisa.

A música que elas cantavam era Chocolate. Pareceu-me apropriado. Imagina, na oitava série, um teatrinho com cantoras de boate de vestido curto dublando Chocolate – HAHAHA! Meu colégio era de freira. Essa peça eles não proibiram, mas no primeiro colegial eles quiseram proibir palavrões na nossa adaptação de Alto da Barca do Inferno.

Nós mantivemos os palavrões e a Chris, uma negra maravilhosa, fazia o diabo de collant vermelho (antes de Britney usar collant vermelho). Ela cantava Rita Lee na segunda cena – a primeira, mais clichê impossível, era Carmina Burana à luz de velas! E um dos destaques era Brízida Vaz (interpretada pela mesma pessoa que fez a Márcia na peça que tinha Chocolate, a Manu) ensinando como se fazer um hímen postiço com uma bexiga.

É, eu me divertia bastante nessa época.

Bom, digressões à parte: Marisa Monte lançou mais um monte de CDs nesse tempo. De alguns eu gostei, outros eu achei fracos. E eis que surge Não é proibido.

Mais radiofônica, mais light. Mas é Chocolate revisada. É mais boba. E é uma música que poderia ter sido cantada pela Diana na pecinha da oitava série. Mas eu gostei por causa dessa memória afetiva ao contrário. “Tá divertido, pode chegar”.

(e isso me lembra que pipoca já foi gíria de cocaína em um certo momento da minha vida. mas isso a gente pula!)

ATUALIZAÇÃO: Marcia me lembrou que Preciso me encontrar é de Candeia, apesar de Cartola ter gravado! Correto: e inclusive é minha música preferida do Candeia! Sorry, Candeia, não revire no túmulo, eu te amo!