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Um choque de realidade

A gente se espanta com tsunami e com espancamento covarde na rua porque
é tão real
e estamos vivendo num mundo onde tudo
sounds so fake
as the fake iceberg
no meio dos
real icebergs
o que é importante?

A minha alergia é real e me assusta,
o meu look do dia que me deixou cafona não me assusta em nada,
a batida de carro é real e me assusta,
as simulações com manequins dentro de grandes câmaras de ar em postos de gasolina que apareceram recentemente são de uma irrealidade tão cretina e grotesca que me fazem rir.

Estou aqui sonhando com Ipanema e sentindo saudade da realidade,
enquanto não entendo & entendo a fé
ao mesmo tempo.

O Rio é real e bonito. Isso me conforta.

então é isso

e se rolassem pactos satânicos
e se rolassem pedras
e se rolassem cabeças
e se tudo fosse uma questão de rolarem
dados

se você não os usa, o que são os dados?
eles viram cartas fora do caralho.

A vida não é filme / Você não entendeu

Ela coloca um elástico prendendo os cabelos desajeitadamente – um terço dos fios continua caindo na sua cara. Arregaça as mangas apressadamente enquanto joga peças de roupa dentro da mala. Fala sozinha:
– He doesn’t know my bed. What does he know about me?
Pára por um momento, pensativa. Corre pra uma gaveta da estante, a abre e começa a procurar em desespero por algo que ela não pode esquecer.

***

O velho caubói acende um cigarro de palha, olhos apertados fixos nela. Ele tem uma barba enorme. Reflete enquanto traga e solta a fumaça. Ela enxuga o rosto, pronta pra escutá-lo.
Ele pergunta:
– Are you sure about that, honey? Coz you look like someone who’s not sure at all.
Ela vira o rosto de lado, como se tivesse um problema de memória e precisasse lembrar de algo que aconteceu há exatos 5 meses.

***

A moça usa cabelo curto, roupas insinuantes que lhe caem bem – quase vulgar. Divertida, rindo, a pega pela mão e a leva pro fundo do bar enquanto grita – o som de sua voz brigando com o da jukebox:
– Of course you’re gonna like them, they are my friends! We’re like a gang! So funny, so fresh! It’s almost like the Factory crew but without Warhol!
Ela se deixa levar. Está sendo puxada – quase quer ir. Fala baixo demais pra que a outra ouça:
– I can’t hardly wait.
Mas seu rosto demonstra que ela poderia esperar por mais 23 anos.

cenas da década passada e uma foto que comprei nessa década

(mas oh, por que eu estou voltando ao passado,
acho que é só saudade de ver alguém dormindo quando o dia está amanhecendo)

tinha muita raiva dela.
ela era grande, pesada, preta e obsoleta.
não a entendia muito bem,
e ele a entendia, porque na verdade não era questão de entender,
era brincadeira do acaso,
e naquela época eu não sabia muito bem brincar com o acaso,
eu sabia brincar de dublar uma música cafona ao lado de uma menina loira e grisalha.

aliás, isso eu sei até hoje.

hoje
(exatamente hoje)
eu sei que na verdade minha esperança era ser uma smith de um mapplethorpe
mas eu só chegava a no máximo uma fernanda abreu mal sucedida
e mapplethorpe
– que eu sempre falo mappletorphe não sei o porquê –
não era dos acasos,
pelo contrário.

e depois eu vi galinhas sendo criadas no quintal da frente daquele lugar outrora tão charmoso mesmo mofado,
tão charmoso misterioso,
tão estranhamente cruelmente próximo de alguns anos da minha vida e,
bem,
galinhas,
engordei,
quis ser hippie,
e depois mas antes disso eu mesmo quis ser mapplethorpe
e depois ele teve o seu mapplethorpe momentâneo
que estava mais pra goldin mas também já tinha um mapplethorpe dentro de si
e bem depois eu quis ser,
quase exatamente nessa ordem,
abreu (o escritor, não a cantora)
hilst
denser
hall
singer (o judeu, não a profissão)
– lispector não, nunca quis ser lispector, nunca tive alma de dona de casa –
masina (quis um pouco, não quis muito)

enfim quis ser muita coisa
até que lembrei que eu podia ser eu mesmo e a década acabou,
o grande dragão dourado não arrancou a cabeça de ninguém,
não morri de catapora morando sozinho,
não vi um ET,
viva drew barrymore
que viu o ET e hoje faz comédias românticas.

Fim da década passada.
Veja bem, esse texto não fala de amor, esse texto fala de arte.
Nessa década, comprei uma foto daquele lugar feita por Goldin,
ela tem um colchão e o sol bate no colchão.
Ninguém dorme no colchão.
Custou R$ 1.
Fim.

Obs.: vou escrever o nome do Ricardo aqui depois do fim porque caso contrário ele se sentiria muito triste se um texto meu sobre o sobrado não incluísse seu nome. Ricardo Domeneck. Pronto, agora inclui.

Na verdade foi a primeira vez

Foi a primeira vez que verbalizei,
como se fosse uma coisa que eu falasse o tempo todo,
mas de certa forma é um dos assuntos mais tabu do momento.
É como alguém falar mal da sua mãe, ou o seu namorado dizendo que “é, você está mesmo gordinho”, ou  fazer uma piada sobre Hitler em um cômodo cheio de judeus na Alemanha.
(certo, o último item é mais tabu ainda)
Continuei a dramaturgia do “conformado”
enquanto por dentro era tudo forrado de emplastros sabiás, fósforos se acendiam em uma velocidade vertiginosa bem rente à minha retina e um filhote de raposa afiava suas pequeninas garras no meu estômago cheio preparando-se para mordê-lo com seus maravilhosos e assustadores dentinhos.

Não tenho muita certeza de nada, não sei se a imagem dele (especificamente a de jaqueta preta) me dá aflição ou ânsia, se isso é bom ou ruim mas a verdade completamente admissível é que a imagem não passa incólume. Não fico indiferente, sem dúvida não fico e

bom, eu já acho que isso é bem significativo, desculpe-me pelo oversharing.

Interesses

Me interessam a chegada do homem à lua,
a letra que significa ss mas não se parece com um ss,
o museu dedicado ao presidente Kennedy,
o jeito como aquele menino de 4 anos tropeçou e reclamou,
os cavalinhos que estavam de bunda e viraram de frente,
as lojas de fast fashion e suas inacreditáveis ofertas,
o fato da C&A se falar cunda e vender a marca Angelo Litrico,
a quantidade de folhas caídas pelo chão,
a quantidade de frutos do mar que comi até agora,
o refrigerante orgânico,
o fato de que talvez várias pessoas nesse trem não estejam pagando a passagem,
o filme de Almodóvar em que Berlim aparece,
aquela loja – estou passando na frente dela praticamente todos os dias e nunca entro – e
o sol, quando ele aparece,
os preços,
o menu do McDonald’s (gosto de comparar e ver as diferenças),
o gosto pela música eletrônica que eles têm,
o gosto por comida vietnamita que eles têm,
a pronúncia aproximada de “sweeter” e “suíta”,
a minha pronúncia inadequada de praticamente tudo (eu digo inválidenshtrasse e o taxista me corrige invalídenshtrasse, ele diz goodbye e eu digo hello),
os narizes,
a adaptação ao frio,
os tamanhos diferentes das cédulas,
o chocolate com embalagem que imita as cédulas,
o gosto das coisas,
a quantidade de estrangeiros,
o gestual das bichas na boate extremamente similar ao gestual das bichas na boate paulistana,
as rugas de Michael Stipe,
a quantidade de coisas pra se ver na estação central de trem,
a quantidade de coisas pra se ver em todos os lugares,
a pele branquíssima, branquérrima, extrema e surpreendentemente mais branca que a minha
e os músculos da sua perna.

De onde você tirou esses músculos todos, Claudia Raia?

Também achei um texto muito fofo

“Lembro de quando Ana me levou pra Praça do Pôr do Sol. Não conversamos.
Eu pensei em parar de escrever mas antes quero registrar aqui que ela é dez, e que eu gostaria de dirigir para levá-la lá também. Ia ser muito bom.
Isso que eu precisava para começar a querer dirigir. Um motivo poético.”

Ainda lembro desse dia nitidamente.

Eu tinha surtos sem motivo, ficava prostrado, meio paralizado, nessa época.
Minha irmã foi me buscar esse dia na escola, e me levou pra Praça do Pôr do Sol.

Aí eu fui fazer aulas na autoescola. Aí não passei na prova prática, e esqueci o motivo poético, e desisti pra sempre.

:/