Arquivos da Categoria: poesia

O que fazer em período de seca?

. Pausas.
. Manha. Mas somente por dois dias.
. Procurar colírios.
. Concentrar-se no que dá dinheiro e não muda o mundo.
. Pintar uma unha, uma só, de azul.
. Sendo mulher, pinte todas.
. Polir problemas.
. Procurar no Google fotos de ambientes marítimos.
. Hilda Hilst.
. Não tentar se surpreender. Não dá certo, e a frustração amarra a boca.
. Mas, se vierem, aceitar as surpresas como presentes providenciais – e agradecer.
. Tomar muita água.
. Tomar muito cuidado com os corações alheios. Um raspão pode ser fatal, um rasgão pode ser abissal.
. Angela Rô Rô.
. Caso esteja no Leblon, aproveitar e observar, apenas.
. Balbuciar. Ninguém precisa fazer sentido sempre.
. Evitar cigarros e bebidas alcoólicas. Não parece, mas eles secam ainda mais.

Acima de tudo, ouvir guitarras, pianos, até atabaques.
E observar a chuva pelas janelas.

Estiagem, pior quando é dentro.

“Nessa semana irei me casar” ou “Você acha mesmo que esse blog é romântico?”

Tudo podia acontecer exatamente na hora certa
ex. meu sono
e seria tudo extremamente chato
ex. o seu timing.

Acontece que decidi acreditar
(bem antes)
que hora certa é um conceito muito errado,
do mesmo jeito que às vezes decido dar uma chance pra coisas que a princípio acho um pouco enfadonhas
ex. Susan Sontag.
Absolutamente certo?
Qualquer pessoa que possua um lado racional além do emocional
ex. capricorniano com ascendente em Gêmeos e lua nunca descobri
não pode avaliar certezas a menos que tenha provas concretas, cabíveis,
e pelo menos com cara de eternas
ex. Maria Callas canta bem, apesar de não fazer meu estilo.
ex. quem sai na chuva de fato vai se molhar.
É por isso que acredito que, sim, o destino pode não existir,
coincidências podem ser apenas coincidências,
ser dono único e solitário de sua própria vida soa desesperador por um lado e ao mesmo tempo te dá aquela sensação boa de “se me foder vai ser culpa minha mas se dar certo vai ser por minha causa também”.

Nessa semana irei me casar.
É esquisito, estou tranquilo. Outras coisas também são esquisitas
ex. Talita vai se mudar pra França de vez em menos de 24 horas e fuma um cigarro como se fosse ontem, não grita como a Toninha da Augusta e nem criou uma queloide de tanto estalar os dedos.
Se você quer mesmo saber o que me preocupa nesse exato momento é
1) quase nada
2) jogar revistas fora
3) arrumar o armário que tem roupa saindo por todos os lados
4) o que será que existe de romântico em um dragão dourado comendo uma cabeça? – bem, talvez as pessoas continuem sem saber encontrar palavras certas pro que querem dizer e eu continuo exigindo muito de tudo e de todos inclusive de mim mesmo
ex. não lembro agora, mas me diga você

Também me preocupo se ele tomou remédio e se ele está dormindo bem.
Ele tem a sobrancelha grossa, um nariz que eu acho a coisa mais deliciosa do mundo e a cara de praia mais adorável que eu já vi – apesar de nunca ter visto outra mas certeza, se chegar a ver não será nem um pouco adorável como a dele. Possui um talento espantoso pro mal humor, e não gosta de cortar as unhas dentro de casa, gosta muito de Pizza Hut e seus olhos são duas pequenas e doces jabuticabas.

quer dizer,
soa romântico,
mas juro que é
(na minha cabeça)
outra coisa.
talvez também seja romântico,
mas outra coisa.
e talvez por isso eu não seja poeta, sou outra coisa.

Pra ausência dele não há solução, pra todas as outras questões existe o Google

Longe dele,
e quando o pensamento não está nele,
e quando não estou no ioga obrigado a esvaziar a minha mente,
perguntas impossíveis pipocam pela minha testa e braço e mão e perna e virilha e pé e

Existem baleias em Santorini?
A Laika ficou triste quando se viu sozinha no meio das estrelas ou nem ligou?
Que fruto dá no Jequitibá?
Qual é a origem do nome de Anaïs Nin?
Quem é da Índia e é ateu acha o Ganesha fofo ou estranho?
Buñuel encontrou alguém tão loira quanto Catherine Deneuve em sua estadia no México?
Como os saguis dormem, sentados ou deitados?
Tem algum lugar no mundo em que, em algum momento, o céu fica verde?
Kate Moss já tem cabelo branco?
Existe rinite congênita?
Já houve algum suicida que morreu feliz?
Tem canário de estimação em Tóquio?
Quando a gente não sabe contar qual é a diferença entre 5 mil e 5 milhões?
Bebês apreciam o cheiro de lírios?
Petit pois cai bem em gente empoada?
A jaca é ácida quando ainda não amadureceu?
Onde fica Santorini?

Aí eu paro de fingir que tenho insônia,
penso nele
e durmo.

(Santorini fica na Grécia)

Passou não

faria eu um poema pra ele
mas só se tivesse palavras

“a vida é boa demais, Jorge”, diz Talita, “e eu lamento por isso, teria aproveitado tão mais”

Talita

MISTÉRIO SEMPRE HÁ DE PINTAR POR AÍ
e não adianta nem

A volta do grande dragão dourado

O grande dragão dourado voltou um pouco antes da Páscoa.
Ele estava, contudo, um bocado diferente.
Trazia entre os olhos uma grande pedra preciosa que lhe foi dada de presente por um tal de Richard Burton,
nos dedos carregava 13 anéis, a maioria de ônix e ágata,
nas unhas usava esmalte holográfico 3D,
no fim do rabo colocou um piercing de titânio,
e na ponta de cada asa pendurou uma grande pena vermelha.

Demorou mas percebi que a diferença não era somente física.
As suas vontades já não eram mais as mesmas.
Ele não tinha as ventas abertas,
nem um sinal de fúria.
Não possuía nas pupilas
o fogo de quem quer comer uma cabeça.
E aí, então, ele riu.

Quem nunca viu um dragão dourado rindo não sabe o quanto isso pode ser assustador.

Seu sorriso era maravilhoso e mitológico, não era da nossa terra nem da nossa época, como já se espera de tudo que vem dos dragões.

Ele me fez acreditar que eu seria melhor se entrasse na British Colony
e comprasse uma camiseta,
e me convenceu de muitas outras coisas.

O grande dragão dourado não quer comer a cabeça de ninguém
mas está muito mais perigoso.

Me encolhi de medo na sala do cinema.

Ou será que foi de frio?

Uma flor

Um choque de realidade

A gente se espanta com tsunami e com espancamento covarde na rua porque
é tão real
e estamos vivendo num mundo onde tudo
sounds so fake
as the fake iceberg
no meio dos
real icebergs -
o que é importante?

A minha alergia é real e me assusta,
o meu look do dia que me deixou cafona não me assusta em nada,
a batida de carro é real e me assusta,
as simulações com manequins dentro de grandes câmaras de ar em postos de gasolina que apareceram recentemente são de uma irrealidade tão cretina e grotesca que me fazem rir.

Estou aqui sonhando com Ipanema e sentindo saudade da realidade,
enquanto não entendo & entendo a fé
ao mesmo tempo.

O Rio é real e bonito. Isso me conforta.

então é isso

e se rolassem pactos satânicos
e se rolassem pedras
e se rolassem cabeças
e se tudo fosse uma questão de rolarem
dados

se você não os usa, o que são os dados?
eles viram cartas fora do caralho.

A vida não é filme / Você não entendeu

Ela coloca um elástico prendendo os cabelos desajeitadamente – um terço dos fios continua caindo na sua cara. Arregaça as mangas apressadamente enquanto joga peças de roupa dentro da mala. Fala sozinha:
- He doesn’t know my bed. What does he know about me?
Pára por um momento, pensativa. Corre pra uma gaveta da estante, a abre e começa a procurar em desespero por algo que ela não pode esquecer.

***

O velho caubói acende um cigarro de palha, olhos apertados fixos nela. Ele tem uma barba enorme. Reflete enquanto traga e solta a fumaça. Ela enxuga o rosto, pronta pra escutá-lo.
Ele pergunta:
- Are you sure about that, honey? Coz you look like someone who’s not sure at all.
Ela vira o rosto de lado, como se tivesse um problema de memória e precisasse lembrar de algo que aconteceu há exatos 5 meses.

***

A moça usa cabelo curto, roupas insinuantes que lhe caem bem – quase vulgar. Divertida, rindo, a pega pela mão e a leva pro fundo do bar enquanto grita – o som de sua voz brigando com o da jukebox:
- Of course you’re gonna like them, they are my friends! We’re like a gang! So funny, so fresh! It’s almost like the Factory crew but without Warhol!
Ela se deixa levar. Está sendo puxada – quase quer ir. Fala baixo demais pra que a outra ouça:
- I can’t hardly wait.
Mas seu rosto demonstra que ela poderia esperar por mais 23 anos.

cenas da década passada e uma foto que comprei nessa década

(mas oh, por que eu estou voltando ao passado,
acho que é só saudade de ver alguém dormindo quando o dia está amanhecendo)

tinha muita raiva dela.
ela era grande, pesada, preta e obsoleta.
não a entendia muito bem,
e ele a entendia, porque na verdade não era questão de entender,
era brincadeira do acaso,
e naquela época eu não sabia muito bem brincar com o acaso,
eu sabia brincar de dublar uma música cafona ao lado de uma menina loira e grisalha.

aliás, isso eu sei até hoje.

hoje
(exatamente hoje)
eu sei que na verdade minha esperança era ser uma smith de um mapplethorpe
mas eu só chegava a no máximo uma fernanda abreu mal sucedida
e mapplethorpe
- que eu sempre falo mappletorphe não sei o porquê -
não era dos acasos,
pelo contrário.

e depois eu vi galinhas sendo criadas no quintal da frente daquele lugar outrora tão charmoso mesmo mofado,
tão charmoso misterioso,
tão estranhamente cruelmente próximo de alguns anos da minha vida e,
bem,
galinhas,
engordei,
quis ser hippie,
e depois mas antes disso eu mesmo quis ser mapplethorpe
e depois ele teve o seu mapplethorpe momentâneo
que estava mais pra goldin mas também já tinha um mapplethorpe dentro de si
e bem depois eu quis ser,
quase exatamente nessa ordem,
abreu (o escritor, não a cantora)
hilst
denser
hall
singer (o judeu, não a profissão)
- lispector não, nunca quis ser lispector, nunca tive alma de dona de casa -
masina (quis um pouco, não quis muito)

enfim quis ser muita coisa
até que lembrei que eu podia ser eu mesmo e a década acabou,
o grande dragão dourado não arrancou a cabeça de ninguém,
não morri de catapora morando sozinho,
não vi um ET,
viva drew barrymore
que viu o ET e hoje faz comédias românticas.

Fim da década passada.
Veja bem, esse texto não fala de amor, esse texto fala de arte.
Nessa década, comprei uma foto daquele lugar feita por Goldin,
ela tem um colchão e o sol bate no colchão.
Ninguém dorme no colchão.
Custou R$ 1.
Fim.

Obs.: vou escrever o nome do Ricardo aqui depois do fim porque caso contrário ele se sentiria muito triste se um texto meu sobre o sobrado não incluísse seu nome. Ricardo Domeneck. Pronto, agora inclui.